26 Jun 2017

Ivo Filipe de Almeida

Na verdade podemos fingir a preocupação quando esta é uma desculpa, em detrimento de um motivo.
Mas nunca fingiremos as prioridades - Elas demonstram quem somos.



21 Jun 2017

Diz que disse...

«Sô doutor juiz, eu deitar boatos da boca pra fora?! Seja, mas tenho atenuantes. O Adérito, um primo meu que abalou para Madrid, já faz um ror de anos, é que me telefonou a perguntar que coisa foi essa de a avioneta cair no quintal. A informação, portantos, eu não a inventei. Veio-me cá ter. Também é verdade que horas antes telefonei ao Nuno - é um irmão do Adérito, que também emigrou para Espanha - e eu disse ao Nuno que foi cá um estrondo o que tinha ouvido para as bandas do quintal, até parecia um avião a explodir, daqueles com piloto inglês como havia antigamente na Grande Guerra. Confirmo mas isso com o Nuno não tem nada a ver, são conversas entre primos. Agora, quando de Espanha me telefonam a perguntar do quintal e do Canadére e do inglês e tudo, eu digo: "Olá..." O que conta é que a coisa chegava-me do estrangeiro e com aqueles pormenores todos... Desculpe, meretíssimo, diz que...? Ah isso... Sim, sim, o Adérito também é primo, aliás, eu já o dissera, mas, esse, é atilado, nada a ver com o Nuno, um estroina. É para o senhor doutor perceber a diferença: se a notícia vem do Adérito fiquei alerta. Mas não me pus logo com atoardas. Fui averiguar. Deitei-me a caminho do posto da Guarda, e perguntei ao sargento: "Que é isso do avião?" Ele olhou-me e não desmentiu - juro pela minha mãezinha, não desmentiu. Desbobinei tudo, o avião, o quintal, o estrondo, a bigodaça loura do piloto... E o comandante da Guarda, népias. Mas eu bem vi que ele chamou um guarda, que se meteu num jipe e, veja a coincidência, foi para as bandas do meu quintal. Tava confirmado. Quanto a mim, fui para a taberna. Durante hora e meia do que é que eu havia de falar? Claro... Mas está aí outro mistério! Se não tinha caído nenhum avião, porque é que me permitiram falar durante hora e meia do avião, do meu quintal e isso tudo? E depois, eu é que sou o boateiro, sô doutor juiz?!»

Ferreira Fernandes

20 Jun 2017

Comunicado da TVI

Descobrimos que o facto da TVI, acolher a preferência da maioria dos cidadãos, legitima Judite de Sousa a realizar uma reportagem com um cadáver em plano de fundo.
Esse cadáver era Mãe de alguém? Filha? Esposa? Na realidade pouco ou nada interessa. A TVI colhe apreciação da maioria dos cidadãos no Big Brother, Casa dos Segredos, Quintas de famosos e Love on Top. E por isso, está mais que justificado.
Não abram os olhos…

19 Jun 2017

Pedrógão Enorme

Ad inicium, tenho de manifestar o meu solene pesar pelas inúmeras famílias que enfrentaram, enfrentam e enfrentarão o terror nos próximos anos. Os acontecimentos em Pedrógão Grande experimentam uma violência extrema quase sem precedência equitativa no nosso país.
O meu sofrimento está com as famílias de todas as vítimas, a par do meu agradecimento aos bombeiros e demais agentes que se sensibilizaram e colaboram das mais variadas formas no combate a este imenso martírio.


Para contextualizar devidamente a tragédia de Pedrógão Grande, é necessário esclarecer que teve mais vítimas mortais (62!) do que os últimos seis principais atentados terroristas na Europa juntos. (12 em Berlim, mercado de natal, Dezembro; 8 na Ponte Westminster em Londres, Março; 4 em Estocolmo, Abril; 1 nos Campos Elísios, Paris, Abril; 22 em Manchester, após concerto Ariana Grande, Maio; 7 na London Bridge/Borough Market, Londres, Junho).
Nenhum propósito de desvalorizar esses atentados (54 mortos no total desses seis episódios), mas não deixa de me sensibilizar a diferença entre o impacto mediático e, a nossa perceção e dimensão real no número de vítimas.
Desde Nice, a 14 de julho do ano passado (84 mortos na sequência do camião contra a multidão), o único acontecimento ocorrido na Europa equiparável ao que aconteceu ontem em Pedrógão Grande foi o incêndio da passada quarta-feira no prédio de habitação social em Londres (79 mortos). Numa altura em que o foco das nossas atenções e dos nossos medos está cada vez mais no terrorismo, não deixa de ser paradoxal que as maiores tragédias sejam incêndios (com causas e enquadramentos muito diferentes um do outro). Aparentemente, o diabo continua a estar nos detalhes.
Por sua vez, já não se aguenta a exposição da ignorância e da arrogância.
- Ignorância de quem faz juízos apressados sem conhecer o terreno extremamente irregular, a situação de aldeias construídas em covas ou pequenos outeiros, os difíceis acessos por estradas e caminhos vicinais, as condições inesperadas nas quais um fogo florestal pode crescer num instante, tudo agravado pelo tempo seco, pelo vento intenso e instável, e pelas temperaturas altas.
- Arrogância de quem insiste em culpas vagas e possibilidades impossíveis, apontando apenas a necessidade de impor o ordenamento florestal - que de facto é necessário, embora não possa ser feito em menos de décadas e com custos enormes - quando, como está comprovadamente a ser este o caso, a conjugação de fatores naturais e humanos foi decisiva.
Concentremo-nos no combate final ao fogo, no apoio às pessoas, muitas delas desalojadas e agora sem meios, na recuperação do que é possível recuperar, depois na melhoria das condições de vigilância e de organização da floresta. Não em culpar entidades mais ou menos abstratas por um desastre tão doloroso quanto complexo.
Tudo tem o seu sentido oportuno.


Só posso exteriorizar o meu mais alto repúdio a quem se apressa na instrumentalização política, de forma a aproveitar-se desta catástrofe.

13 Jun 2017

Olho por olho e o mundo acabava cego - Tatuador

Assistimos à humanidade na sua casta desdenhável.
É agora expectável uma justiça célere, capaz de demonstrar tanto ao jovem(!), como ao tatuador(!) que a justiça se opera nos Tribunais.
Os Tribunais e não outros, são órgãos soberanos que exercem a administração da justiça em nome do povo. Escapando esse discernimento, estaremos sempre no encalce de um povo carecido de princípios, de valores, que não tem cidadania natural para saber existir em sociedade.
Tortura não é justiça. É só revolta, é só vingança.






9 May 2017

Duche, é o local onde se exorciza o mundo.

A água está sempre quente demais. Mas aos poucos habituamo-nos à temperatura, vamos regulando de tépida para quente, de quente para bastante quente, e tudo isto ao som da nossa alma, que vai acabar em fervente que nem sauna num nevoeiro caseiro de abraço quase afectuoso.
Em criança o som da pressão da água na minha nuca sempre foram helicópteros de recreio que se acercavam e apartavam ao lento movimento baloiçante do meu corpo. Enquanto a bordo, apaticamente se descortinavam amarelas lezírias do Alentejo, verdes montanhas do norte, praias edénicas e sem muito esforço ainda serviam de ritmo ao batuque da música que se apreciava. Sim, música.
E ali são só músicas perfeitas, das melhores notas importadas do tálamo de serenidade, em terra de algodão doce e fadas pequeninas que sibilam e tremeluzem enquanto esvoaçam.
Enquanto naquela água em pressão, talvez pouco benta mas muito de santa, me mimoseava um cafune à alma com um Xanax ao espírito, consente que se desmaterialize o tempo, se olvide os horários e, se sorria furtivamente das urgências.
Duche, é o local onde se exorciza o mundo.

2 May 2017

Amizade segundo a minha mente inadaptada

Hoje faço um assolapado elogio à amizade pura, amizade de histórias e amizade de vida.
Reivindico os valores ancestrais e fora de moda, apresento o meu rol para a defesa impiedosa desta minha condição de revoltado. Sim, hoje sou o carrasco da vossa modernidade, dessas vossas amizades do futuro e digo-vos já, vão perder.
Não sei quantos são, mas juntos são débeis, modernos são fracos. Amizade de contrato, de arrendamento, de compra e venda e de palmadinhas nas costas. Contrato crime ou criminosamente de oportunidade. Oportunistas dos sentimentos, cumprimentam-se hoje com troca de olhares, choram uns por outros sem nunca amar. A vossa amizade foi vendida á era dos pantufinhas, daqueles que fazem pouco barulho, e o ruído, esse fica guardado para a ostentação dos conhecidos amigos ocos, de agora, de hoje, de pouco mais que isso. Acabou-se ou perdeu-se em lugar incerto os 'escolas' da luta, dos amigos irmãos, dos irmãos amigos, dos irmãos irmãos. Os velhos do Restelo dos onde o nojo não pega e o riso aparece só depois da lágrima. Procurem-nos de novo, façam-no por mim, façam-no para não serem tão miseráveis. Façam para o tempo voltar a perder contra a amizade, para num jogo de postura, não ter a mínima hipótese de voltar a falar. Todos sabem explicar a amizade, todos em fugaz estupidez quanto mais falarem, mais estão engrenados no zoo dos leais, no jogo das ilusões.
Amizade nada tem a ver com ilusões, ou tanto quanto o amor com o clima de amanhã que chove. Amizade falada, amizade explicada? Calem-se e baixem olhos de vergonha, amizade tal como amor, não é para entender, como falar? Sentir! É sinal de amizade não perceber, querer sem guardar qualquer esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado do que quem vive feliz. Nada menos que isto, e agora, profissionais da amizade moderna, técnicos da piscadela de olho, discutam e expliquem a amizade, Imbecis.